País pode enfrentar os riscos planetários com soluções locais que promovam confiança na informação e arranjos sustentáveis

 Por Lori Regattieri* 

No último dia 10 de janeiro, o Fórum Econômico Mundial publicou um relatório que indica a desinformação e as mudanças climáticas como os riscos mais severos para o planeta. Proponho observar esses riscos de modo integrado e localizado, considerando a liderança do Brasil no G20 para uma programa sobre integridade informacional e o seu papel e protagonismo na agenda ambiental-climática rumo à COP30 em Belém, no Pará. 

 Entendo que ambos os fenômenos estão interligados e demandam  soluções propositivas, principalmente porque as ameaças à integridade da informação tem um impacto negativo na realização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e a Agenda 2030. Um ambiente de integridade informacional ancorado na precisão, consistência e confiabilidade promove uma cultura comunicacional plural e diversa, que diferencia fatos de ficção, opiniões e inferências, reconhece incertezas e é transparente quanto às influências econômicas. 

Criar esse ambiente  é fundamental para uma arena pública em condições de movimentar ações políticas e de participação cívica e informada da população. Sabe-se que a desinformação socioambiental e a inércia que ela promove minam os esforços urgentes para enfrentar a crise climática. No Brasil, diante da erosão da confiança nas instituições e da adesão de parte do setor do agronegócio ao negacionismo climático, ações efetivas para a eliminação do desmatamento em todos os biomas e cadeias produtivas ainda encontram barreiras para a implementação e o engajamento político da sociedade. 

Detalhes do relatório nos ajudam a contextualizar as transformações de ordem econômica, política e societária que refletem o rankeamento dos riscos globais e nacionais. Por exemplo: a ocorrência de eventos extremos é uma preocupação permanente, consolidando-se como um risco severo no presente e a longo prazo. Já a desinformação é o risco com maior crescimento desde o último relatório, subindo quinze posições e liderando as dez preocupações globais para os próximos dois anos.

O relatório traz ainda,uma pesquisa executiva, que indica o ranking das cinco percepções de risco  por país. No caso do Brasil, desinformação e eventos extremos não aparecem nessa lista, composta por desaceleração econômica, inflação, dívida pública, censura e desigualdade. Esses são riscos evidentemente dignos de preocupação e estão conectados à realidade social brasileira, mas a ausência dos dois temas com alto índice de severidade global acentua as co-responsabilidades de governo, academia, sociedade civil e setor privado no reposicionamento estratégico do Brasil no mundo. 

Como compreender a dissociação entre a escala de riscos brasileira e a planetária? E, diante da complexidade da governança internacional, como fortalecer a posição brasileira para a construção de consensos com base em uma agenda multilateral comum de integridade informacional e uma economia descarbonizada? Inspirada no livro “Inquietações de um Brasil contemporâneo: desafios das eras climática, digital-tecnológica e biológica”, uma escrita coletiva de Francisco Gaetani, Izabella Teixeira, Macello Brito, Roberto S. Waack e Samela Sateré Mawé, a análise de riscos e percepções do relatório do Fórum Econômico Mundial transforma a angústia em criatividade política. 

Nessa perspectiva, a justiça climática deixa de ser slogan para se tornar governança coordenada e duradoura para o financiamento de adaptação das cidades, identificando o racismo ambiental e pactuando, no centro dos desafios tecnológicos-ambientais, a relação humanidade e natureza, cultivando uma esfera pública inclusiva e resiliente aos ciclos do radicalismo e dos extremismos anticiência. 

O Brasil voltou e pode enfrentar os riscos planetários com soluções locais que promovem a confiança na informação e arranjos sustentáveis no desenho da cooperação internacional. 

*Lori Regattieri é Consultora em Tecnologias Justas e Sustentáveis. Foi Fellow em Trustworthy AI na Mozilla Foundation. Lidera o projeto eco-mídia.com.

Texto originalmente publicado na newsletter Polígono, do Núcleo Jornalismo.